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Mais uma rede social



Me lembro bem, lá nos idos de 2008, de levar uma treta amorosa ocorrida no Orkut para a minha sessão de terapia. Me lembro também de me sentir bastante ridícula por isso.


Doze anos depois, cá estou eu desabafando sobre a criação de mais uma rede social. E falo sobre isso de forma seríssima. Eu não tinha noção (e ouso dizer que o Zuckerberg também não) de como as redes sociais transformariam a nossa vida, embora naquela época eu tenha tido demonstrações bem claras da capacidade do Orkut de acabar com um namoro real. As redes, que a princípio surgiram como brincadeiras de jovens desocupados, aos poucos se tornaram pontes, vitrines e hoje se confundem com a própria vida off line.


E aí, quando a gente pensa que não é mais possível, quando nosso dia já não tem horas suficientes para tanto aplicativo instalado no celular, eis que surge uma nova rede no pedaço. E o pior, causando o maior alvoroço.


O impulso imediato é entrar, afinal, tem gente foda dizendo que é bom.


Não me entusiasmo, e isso faz com que eu me sinta um ET. Um peixe fora d’água.


Tá bom, o negócio tem potencial. Mas sou novamente invandida por sentimentos contraditórios sobre a Internet.


Sentimentos que em 2020 tomaram proporções inimagináveis.


Mais uma rede?


Oportunidade?


FOMO?


Mas o que eu tenho para dizer?


Não tenho nada para falar.


Será que não?


E o meu tempo? Quem, pelo amor de Deus, pode criar um aplicativo para multiplicar as horas do meu dia?


Onde, aliás, essas pessoas onipresentes em todas as redes sociais encontram tanto tempo disponível? Deve ter alguma coisa errada comigo. Só pode.


Tudo isso me parece bem angustiante. Um monte de gente numa corrida maluca e desenfreada sobre quem chega primeiro em algum lugar que nem sabemos qual é.


Eu também quero ter algo a dizer.


Eu também quero ter a minha voz no mundo.


Eu também quero ter liberdade de fazer conferências de áudio sobre assuntos cotidianos em uma sala virtual repleta de desconhecidos em plena segunda-feira às quatro da tarde.


Mas afinal, sou muito normal. Não tenho tempo para isso.


Tenho um trabalho de oito horas e dois filhos pequenos que crescem em uma velocidade assustadora. Não dá para acompanhá-los com a intensidade que eu gostaria (com intensidade nenhuma, na verdade) e acessar diariamente 38 redes sociais. Essa é minha fase e preciso abraçá-la.


Não resta alternativa, a não ser entender que não dá para abraçar o mundo e, ao mesmo tempo, aproveitar a delícia que é abraçar duas crianças todos os dias pela manhã.


Amanhã já não haverá crianças.


E novos Clubhouse’s, pelo visto, sempre aparecerão.


Se aquieta, portanto, coração.


Essa conversa, ao menos por enquanto, eu vou passar.



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      Flávia Vilhena
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Sou a Flávia. Mãe do Caetano e do Augusto. Viajante, ex-blogueira (de viagem), advogada e agora escritora...

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