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Qual o seu talento?



Recentemente assisti a um vídeo sobre o tema, cuja definição me chamou a atenção: talento é algo que seja fácil de fazer. Mas esse fácil não precisa ser natural. Talentos também podem ser aprendidos quando há interesse, curiosidade. Mas, independente de ser natural ou adquirido, o talento precisa ser exercitado.


Ao refletir sobre meus talentos, de cara pensei na escrita.


Desde criança eu recebia elogios por ela. Tenho boas memórias de quando, na segunda série, minha redação estampou a porta da sala, escrita em papel pardo gigante: “O peixinho dourado”. Também me lembro da temida professora de português do primeiro ano do ensino médio (ex agostinianos entenderão). A fama da tal professora acompanhava os alunos desde os primeiros dias de aula, mesmo que isso acontecesse no maternal. Era o terror. Chegado o tão temido encontro, toda a fama era vera. A professora era de fato um carrasco e nossa relação era para lá de conturbada. Perdi as contas de quantas vezes fui chamada atenção em público ou expulsa de sala por transgressões como conversas paralela ou mascar um chiclete. Mesmo assim tirei notas máximas e ganhei grandes elogios nas minhas redações, com direito até a uma menção honrosa na frente de toda a classe em função de um dos trabalhos da disciplina.


A orientação era simples e objetiva: escolher uma foto e descrevê-la. Me lembro de folhear os álbuns de viagens dos meus pais em busca da foto perfeita. Eu não viajava ainda, mas já sonhava com isso, só com base nas histórias que eu ouvia deles. A escolhida foi uma foto da minha mãe sentada em um tapete de folhas amarelas em um outono em Paris. Talvez seja por isso, aliás, que o outono em Paris seja uma das coisas mais lindas que meus olhos já viram, muitos e muitos anos depois, mas isso é outra história. Me lembro também, com nitidez, de olhar para foto e começar a escrever um texto padrão, seco, e logo em seguida pensar: e se eu ousar?


Atendi o chamado, escrevi com o coração. O resultado me impressionou, mas tive ímpetos de refazer, pois achei que estava viajando demais. Mas, por algum motivo que até hoje não sei explicar, deixei de lado toda a vergonha que me acompanhou de forma incansável nos anos escolares e fiz o que minha intuição mandou: entreguei o trabalho escrito com alma, o que me rendeu o grande elogio.


Não era uma simples descrição de uma mulher de cabelos curtos, usando roupas de frio, sentada em um tapete de folhas amarelas, debaixo de uma árvore. Era a descrição nua de todos os sentimentos que aquela imagem despertavam em mim: meu sonho de conhecer Paris, a poesia das folhas que caem encerrando ciclos e renovando a vida, a angústia provocada pelo clima frio, a nostalgia dos instantes congelados que não voltam mais e mais um monte de sentimentos que, infelizmente, não consigo mais me lembrar.


Eu daria tudo para ler esse texto novamente. Fato é que ele se perdeu, junto com esse meu talento que, por vários motivos, ficou adormecido. E hoje, mesmo compreendendo o que me afastou da escrita, é muito difícil romper com esse padrão.


Mas nunca é tarde para mudar. Por isso sigo tentando reencontrar esse talento e percebo que torna-se mais fácil a cada dia que pratico, embora ainda esteja longe de ter a excelência que eu gostaria. Eu poderia parar por estar imperfeito. Eu poderia parar porque minha audiência é pequena. Ou posso seguir e, daqui a muitos anos, me lembrar não apenas das lindas palavras que desperdicei ao me desfazer, com desdém, da poesia em que transformei aquele outono em Paris, mas também do dia em que resolvi abraçar aquilo que me move e tanto me faz bem.


E você?


Tem investido em seus talentos?


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      Flávia Vilhena
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Sou a Flávia. Mãe do Caetano e do Augusto. Viajante, ex-blogueira (de viagem), advogada e agora escritora...

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