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Vai passar

“Na vida tudo vem e vai, vem e vai...”


Essas foram as primeiras palavras do guia turístico ao me apresentar Ayutthaya, antiga capital da Tailândia. Ele se referia à impermanência, uma das bases dos ensinamentos budistas.


Aceitar essa premissa é um dos caminhos mais fáceis para a felicidade. Por outro lado, é justamente essa uma das maiores causas de sofrimento em nossas vidas.


Tão simples e ao mesmo tempo tão difícil.


Naquele momento me encantei pelo budismo e por toda a sua sabedoria.


Mas nem sempre eu me lembro desse aprendizado. Principalmente em meio à pandemia.


Ontem o prefeito de Belo Horizonte anunciou o retorno da cidade à estaca zero. Enquanto pais e mães ansiavam pela reabertura das escolas, o que se revelou foi um retrocesso ao ponto de partida. A partir de segunda-feira, somente serviços essenciais. Uma ducha de água fria em todos que esperavam ansiosamente pelo fim de 2020, como se a virada do calendário operasse milagres.


Por mais esperada que fosse, a notícia trouxe à tona lembranças de tempos sombrios, de uma época em que, apesar das incertezas, acreditávamos em algo bem mais provisório do que a quarentena se revelou. Talvez se tivessem nos dito, lá em março, que isso duraria até 2021, tivéssemos tido certeza que não daríamos conta. É muito fácil se deixar levar pela dor da mudança e pelo medo que o inesperado, mesmo sendo inerente à vida, causa em nós.


Mas demos conta! E hoje, apesar da incerteza de quanto tempo tudo isso ainda irá durar, já conhecemos o caminho e já sabemos que ele permanecerá sendo longo, o que, apesar de tudo, já não é tão amedrontador.


Mesmo assim, na hora da notícia, foi inevitável me render à tristeza. Individualmente, dói pensar que perderemos as valiosas válvulas de escape conquistadas para uma melhor qualidade de vida dos meus filhos. Tirando isso, o resto me parece até ok de lidar. Estou acostumada. Mas eu sei que o buraco é bem mais embaixo. Penso em quanto essa medida será um desastre para setores que, à duras penas, tinham conseguido sobreviver até aqui. Setores que, ao fim, representam pessoas. Milhares e milhares de tragédias individuais. Isso me gera uma angústia ainda maior.


E ainda é preciso lidar com os discursos. Uns defendem o prefeito, outros defendem o comerciante, o empregado, o cidadão. É um tal de culpado pra lá, culpado pra cá. Também tento fazer isso. Também quero encontrar um culpado. E por mais que eu tente culpar o Prefeito, não consigo. E por mais que eu tente culpar a população, apesar das cenas chocantes de festas lotadas que vi por aí, não consigo.


Não é culpa de ninguém. Ao mesmo tempo, a responsabilidade está na conta de todo mundo.


Só ajudaria bastante se o tom do anúncio não fosse de punição. Não precisamos de mais punições, Sr. Prefeito. Já estamos suficientemente fodidos. Portanto, faça-nos um favor. Guarde pra si o arrogante discurso do “eu avisei”.


Mas nada como uma noite de sono, afinal.


Nasceram com o sol, novos raios de esperança. A vacina está mesmo chegando. Chegamos na praia. Estamos perto do início do fim desse pesadelo.


E aí eu me lembro daquele guia baixinho de olhos puxados.


Como tudo na vida, vai passar.


E aí seremos só felicidade em celebrar a assustadora e inevitável impermanência que rege nossas vidas.





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      Flávia Vilhena
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Sou a Flávia. Mãe do Caetano e do Augusto. Viajante, ex-blogueira (de viagem), advogada e agora escritora...

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